sábado, 15 de setembro de 2012

Velho e Louco

Envelhecerei. Resmungarei sozinho pelos cantos  e esbravejarei todos os dias contra um "eu" imaginário e ainda jovem. Lhe perguntarei, um milhão de vezes: "Que diabos estava pensando?".
Sentarei em cadeiras de balanço, coçarei minha barba branca e gritarei, velho e louco, com pessoas que não estarão lá.
Em minha insanidade caduca, chorarei sozinho e no instante seguinte darei gargalhadas, lembrando da vida que tive e que por vezes esqueço.
Olharei no espelho e verei nas rugas apenas um rascunho do que outrora fui. Então, em mais um devaneio desta velhice insana, meu "eu jovem" reaparecerá sorrindo ao meu lado e aos berros lhe indagarei: "Criança estúpida! Que diabos estava pensando? Para quê amar tanto? Custava fingir? Ser mais simpático? Mais normal?".
E ainda com um sorriso no rosto, esse eu mais novo me dirá, pela milésima vez: "só assim seria você mesmo" e desaparecerá enquanto coloco a pasta na escova de dentes.
"Obrigado. Eu sempre esqueço desta parte" - Pensarei enquanto escovo meus dentes falsos, lambuso minha barba velha e esboço um sorriso simpático no rosto.
Envelhecerei. E mesmo velho e louco, ainda ficarei contente por ter sido eu mesmo.




terça-feira, 14 de agosto de 2012

Fim de Noite

Saiu do bar cruzando os passos e esbarrando em cadeiras. Entregou a comanda paga e resmungou algumas palavras que homem da portaria, atrás de um bigode branco e escondido dentro de uma jaqueta de couro duas vezes maior que ele, sequer compreendeu. 
Deu mais alguns passos, sentou no cordão da calçada e gritou: “Garçom! Uma bebida, por favor!”
A noite já estava acabando, uns caras que 
bebiam por perto olharam e riram daquela estranha sentada na calçada. Tinha os cabelos loiros e desarrumados, o rosto borrado, o vestido sujo de vinho mas, apesar de tudo isso, ainda parecia bonita. Mesmo escondidos atrás do negro rímel, seus olhos verdes sempre encantavam.
Gritou por bebida mais uma ou duas vezes. Não conseguiu nada além de mais risos. Baixou a cabeça, olhou para as pertas já pálidas com o frio e pensou que há certas noites que são frias demais. Essas noites começam congelando os pés como qualquer outra noite fria, mas não param por aí. E não importa quantos casacos, meias ou calças você coloque, há certas noites que são frias demais. Mas é um frio estranho. Esse frio que deixa tudo cinza. Que gela a alma e aperta o coração. É um frio diferente, que independe do número de roupas ou cobertores que você usa. Tem mais a ver com o número de pessoas a sua volta. E não é qualquer tipo de pessoa. Só aquelas que se importam com você. Quanto menos delas, mais frio se sente. E os casacos ao invés de esquentar, sufocam; apertam e tudo que você consegue sentir por eles - e por todas as outras coisas do mundo - é uma raiva apertadamente sem motivos, mas que consome, que vibra e grita mais alto do que sua própria voz poderia. Há certas noites, como essa, que são frias demais e só o que se deseja é não estar sozinha nesse frio. Mas geralmente, se está. “Uma bebida por favor!” - gritou mais uma vez.
Levantou da calçada e fez sinal para o primeiro taxi que apareceu. “Avenida Oitenta e Três, número oito, tio.”
Abriu o portão do prédio, passou pelo hall, entrou no elevador apertado - pequeno demais para um edifío daquele tamanho - e apertou o dez. Escorou a cabeça na perede do elevador e olhou sua imagem no espelho. A respiração fez com que o vidro ficasse embaçado. Levantou o braço esquerdo e desenhou um rosto feliz no lugar do seu. “Sorrisos falsos para reflexos falsos. Como lá fora.” - falou enquanto a porta se abria e ela revirava a bolsa procurando as chaves do apartamento.
Esbarrando nas paredes, entrou, jogou os sapatos em um canto, a bolsa em outro e serviu mais uma dose de uísque, sem gelo. Enquanto bebia foi para a sacada. Já começava a amanhecer. Passou os pés por cima da mureta e sentou-se alí, com o uísque na mão e os pés balançando ao vento, no alto dos dez andares. Dalí vía-se quase toda cidade.
Olhou para o terço de sol que já havia nascido e sorriu. Talvez o único sorriso sincero da noite. Da semana. Do mês. Da vida.
Seu rosto trazia a expressão cansada de horas de bebedeira, mas seu olhos íam além. Pareciam vazios, sem brilho.
Pensou nas contas pra pagar, no emprego de merda, no chefe cretino e nos poucos amigos esquecidos. O que lhe incomodava não eram os convites não feitos, mas sim os feitos da boca pra fora. E havia muitos desses. Imaginou já estar cansada de tantos sorrisos falsos, de gente que defende o sim, mas só usa o não e de tantos livros julgados só pela capa. Bebeu mais um gole, largou o copo na mureta da sacada e sorriu mais uma vez.
“Por que não?” - falou, ainda com o sorriso nos lábios.
E pulou.

sábado, 24 de março de 2012

A Anfitriã

Ainda sozinha, arruma todas as coisas para a festa. Não que a festa seja algo muito importante, mas mesmo assim confere tudo pela milésima vez. A bebida no congelador, os copos comprados especialmente para essa noite, o som, a luz. Tudo neuroticamente ajeitado para que todos se sintam bem em sua casa. Todos foram convidados com um sorriso no rosto para que, desde o princípio, nada saia errado. Sempre fora gentil. Sempre se preocupou ao extremo para que tudo estivesse detalhadamente certo. Agora não seria diferente.
Há algo nessa garota que parece estar sempre escondido. Uma mágoa, uma dor. Se esforça ao máximo para que as pessoas gostem dela. Há nela uma súplica silenciosa, que implora aos sussurros de olhares a aprovação de todos. A mera alusão ao desagrado alheio lhe espanta tanto que chega a sentir o peito apertar cada vez que pensa nisso. Assombra-lhe imaginar que, por qualquer motivo, alguém possa não gostar dela.
Em meio a sorrisos, histórias e bebidas todos riem. Riem alto. Alto demais. No andar de cima, seus pais já brigaram com ela uma dezena de vezes durante a noite. É tarde. Ela olha em volta, tudo gira, as pessoas conversam alto. Cercada, sente-se sufocadamente sozinha. Talvez pela bebida, talvez por não aguentar mais essa estranha dor que carrega, esse estranho vazio que desde outrora habita seu peito e que tentara a noite toda encobrir com sorrisos, ela explode em lágrimas. Aos soluços tem que mandar todos embora.
Qualquer um em seu lugar diria algo como "Ok, pessoal. A festa acabou!". Ela não. Ela chora e pede desculpas. Só consegue pensar no que irão achar dela no dia seguinte. E ao pensar nisso, chora mais. Cada um que passa pela porta leva junto um pedido de perdão. Cada um que passa se importa menos. Os olhos dela parecem temer a solidão que inevitavelmente segue e suplicam: "Por favor, não me odeiem". É como se cada pessoa que vai embora arrancasse um pedaço daquela aprovação que tanto necessita. "Por favor, não me odeiem".
O último convidado vai embora. Ela fecha a porta e senta nas escadas, sozinha no escuro de seu pesadelo particular, esfrega os olhos, remove o resto da maquiagem que resta e, pensando nos que saíram, pede desculpas mais uma vez. "Por favor, não me odeiem".

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Trem das Seis

Nada como pegar um trem lotado às 18h de um dia de verão. Como se não bastasse o calor infernal da rua, dentro dos vagões ele era maximizado pela aglomeração das pessoas. A maioria voltando do trabalho. Espremendo-se em centímetros quadrados, sofria-se para entrar, para sair, para ficar.
Suores e odores dos mais variados deixavam o ar carregado, denso, difícil de respirar. Pessoas que traziam nos rostos a expressão do cansaço estampada. Em um cenário quase sem cor, notava-se de olhar em olhar um tom de tristeza pairando, espreitando, como se fosse crescendo a cada estação em que o trem parava e mais um punhado de pessoas embarcava.
De um lado, sentados lado a lado, alguns pareciam ensaiar uma espécie de dança. Um balé sincronizado de olhos fechados e balançar de cabeças no ritmo do chacoalhar do trem. Vez ou outra, um destes abria os olhos para verificar em que estação estava, mas rapidamente fechava como que para fugir daquela realidade.
Do outro lado, outros reclamavam. Do calor, dos passageiros, da vida. Alguns, entretanto, pareciam seguir o percurso todo em universos paralelos, alheios aquele caos, vezes com fones de ouvido, vezes com pensamentos e devaneios. Contudo, ambos com o mesmo olhar distante e profundo que ia muito além das janelas dos vagões.
Parecida com tal, era a expressão de uma senhora idosa sentada junto à janela. Com os cabelos grisalhos, pele enrugada e - apesar do calor - roupas de lã. Ela parecia a minha avó ou a avó de um amigo. Tinha a expressão comum, doce, bondosa e clichê que toda avó tem.
Porém, diferente dos outros, seu olhar não era vago, nem as expressões de seu rosto eram tristes e cinzas como as demais. Ela olhava encantada para a rua enquanto o trem se aproximava do aeroporto. Quando, ainda de longe, enxergou a ponta de um avião subindo e rasgando o céu como um gigante alado, percebia-se claramente em seu rosto a surpresa, o estranhamento e a alegria de algo visto pela primeira vez. Quanto mais perto, mais arregalados seus olhos ficavam. Sussurrado entre seus sorrisos, ela deixou escapar um “Meu Deus”, como se o que via fosse um milagre do próprio.
Ali, sentada anexa a todo o caos, calor, desconforto e confusão, estava aquela senhora, sorrindo e achando aquele o melhor lugar do mundo.
Eu? Sorri também.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Lágrima de Festa

Escova os cabelos negros e lisos na frente do espelho. Pinta os olhos e o olhar, já normalmente triste, ganha um ar ainda mais sombrio que contrasta com o sorriso inegavelmente bonito. Mesmo assim, com certo desagrado pelo que vê, se olha no espelho uma última vez antes de sair para uma festa qualquer.
A verdade é que ela é infeliz o tempo todo. Há quem diga que isso é impossível, mas o fato é que mesmo quando sorri, algo dessa dor que carrega ainda está lá escondido, esperando. É como quando se está chorando e alguém fala algo engraçado e, mesmo com o rosto ainda cheio de lágrimas, você esboça um sorriso, mas nada mudou. Apesar do sorriso passageiro as lágrimas ainda demorarão muito para secar.
Parece estranho. É algo que ela não consegue explicar, que lhe pertuba. Uma sensação de vazio e um constante nó na garganta, quase como um grito abafado que nunca se liberta.
Mesmo rodeada de amigos, música, sorrisos e bebida – muita bebida – ela não consegue se conter e, talvez até por culpa dessa última, no meio da festa uma lágrima em fuga escorre-lhe o rosto. Rebento desgarrado de um poço de outras tantas. Gota que foge em um momento de descuido, forçada pela leveza da embriaguez, a visão do ser amado com outra, por lembrar de algo. Tanto faz.
Quando um estranho vem e lhe pergunta se está tudo bem, já nenhuma outra corre o risco de deixar-se escapar. É como se o elástico que prende a máscara responsável por esconder sua tristeza tivesse escapado de repente e parte de sua dor se tornasse visível por alguns instantes. Como disfarce, distribui alguns sorrisos tímidos para reafirmar que está tudo bem. Toma mais um ou dois goles da primeira bebida que enxerga, ganha fôlego e tudo volta a ser como de costume. Feliz, para quem vê, mas infeliz o tempo todo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Conto de Fadas

Ele era perfeito pra ela. Ótimo emprego, terminando a faculdade, nem muito novo, nem muito velho, dizia ter seus 25 anos e apesar de um pouco desgastado pelos revés que o tempo trouxe, era um homem bonito. A cada palavra que saía de sua boca tinha-se a nítida sensação de que, para ela, o céu era mais azul, os pássaros cantavam mais e o sorriso em seu rosto era cada vez mais constante.
A história parece um conto de fadas pós-moderno, com direito a noites com os amigos, jantares na casa dos pais dela e tudo mais. Cada sorriso dele, dava à ela um motivo a mais para acreditar. Sim, desta vez, era amor.
O ano passou voando. Desse jeitinho que tudo passa quando se está feliz. Quando menos esperavam já estavam morando juntos. Divindo um apartamento bacana na Cidade Baixa. Era um bom lugar. Na época em que foram alugá-lo, ela ainda relutou um pouco, porém foi fácilmente convencida depois de um ou dois sorrisos e um “vai ficar tudo bem” dito, por ele, com a voz mais tranquilizadora do mundo.
Ela ainda ainda organizava algumas coisas que ficaram da mudança. É como dizem, mudança sempre leva tempo demais para ser organizada. Mas o fato é que ainda ouviam-se pássaros cantando ao seu redor, tamanha era a felicidade estampada em seu olhos, quando recebou a visita de uma amiga. Conversaram por um longo tempo, afinal, havia muito papo para se por em dia. A última vez que se encontraram foi a mais de um ano. Ambas ainda eram solteiras e cansavam de acordar “semi-mortas”, uma na casa da outra, sem nem desconfiar como haviam chegado lá depois de uma noite de festa.
A amiga olha um porta-retrato em cima da mesa de centro da sala. Sentada no sofá, estica o braço e pega o objeto. Ainda com um sorriso no rosto, olha a foto presa na moldura. Como se estivesse em câmera lenta, seu sorriso desaparece e depois de um tempo de silêncio, pergunta, quase gaguejando: “é ele?”
Não mais do que 20 minutos foram necessários para que o sol desaparecesse, os pássaros morressem todos e nem mais uma cor se visse até onde seus olhos já cheios de lágrimas pudessem enxergar. Morrera, por dentro, ela também, ali naquela sala.
Tudo não passava de uma grande mentira. O emprego era falso, mal ganhava um salário mínimo, quanto menos poderia-se chamar o que ele tem de “bom emprego”; A faculdade estava apenas no início; Ele mal completara 20 anos. Mentiras e mais mentiras. Uma atrás da outra. Um sociopata enrustido que forjara de telefonemas a visitas de trabalho, era o que ele era. Tudo por uma sórdida satisfação. Um louco, desses que se ve em novela e pensa-se que uma pessoa assim sequer existisse.
Quando acabaram tudo, ele foi embora e levou suas coisas sem dizer uma palavra. Ou melhor, disse muitas. Nenhuma que fosse verdade ou que valesse a pena ser repetida. Diferente dos contos de fada onde donzelas em perigo são salvas por príncipes em grandes cavalos brancos, esta não foi salva. Apenas atravessou a rua, entrou em um bar, sentou em um banco colado ao balcão e pediu:
- Uma cerveja, por favor.
- Dois copos?
- Não, um só.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Que inveja

É estranho. Diria até que beira o bizarro o quanto é difícil escrever um bom texto. Teoricamente parece fácil, basta escrever o que se tem na cabeça. O que vier à mente. Letra por letra, palavra após palavra, uma ideia depois da outra e pronto, texto feito. Mas não é.
Acredito que funcione, mais ou menos, como quando alguém pergunta o significado de uma palavra difícil. Você sabe o que significa, conhece o sentido, mas não consegue transcrever para os outros o significado e, geralmente, a única coisa que balbucia é “Eu sei o que é, mas não sei explicar.”
A história está toda alí, martelando na sua cabeça. Praticamente implorando para ser escrita. Algumas vezes você até consegue contar trechos dela para outra pessoa, mas na hora de escrever, nada acontece. A história simplesmente esconde-se na sua mente, atrás de uma barreira que fronteira o imaginário e a escrita. No exato momento em que a caneta toca o papel, a história esvai-se em fumaças brancas de esquecimento. Escreve-la então, se torna uma eterna Odisséia à caça de nuvens de pensamentos soltos que, tão nítidos até pouco tempo, agora apenas fazem parte de um enorme quebra-cabeças literário.
Invejo alguns “Caçadores de Nuvens”, como uma guria que conheço que escreve em “doses” geniais da própria vida, ou outra que esbanja textos esportivos como se fossem contos. Ivejo-as como conseguem, tão facilmente, montar estes quebra-cabeças que para mim são tão difíceis.
Invejo, mas não por mal. Porém, pensando um pouco, lembrei que certa vez ouvi que “não exite inveja boa”. E olhando por esse ângulo, o que sinto não seria inveja, então, seria outra coisa. Uma admiração misturada com querer pra si. Um misto de abobação e indignação. Um fascínio quase estranho. Em poucas palavras: eu sei o que é, mas não sei explicar.