segunda-feira, 31 de maio de 2010
Desencontros
- Só uma amiga – respondo, enquanto entro no chuveiro.
- Meio tarde, não?
- Também acho – murmurei para mim mesmo e, enquanto a água limpava meu corpo, as lágrimas me lavavam a alma. – Muito tarde.
****
À tarde, na volta pra casa, em um táxi qualquer, eu disse à ela: “besteira, você pode escolher o cara que quiser”. E estava certo. Azar o meu. “Nos vemos à noite” – falei, enquanto me despedia com um sorriso no rosto. Se, muitas vezes, choramos de felicidade, creio que, naquela hora, sorria de tristeza. Talvez, lamentando por tudo que poderia ter dito e não disse. Pelo que poderia ter feito e não fiz... não fiz.
Lembro que saí do carro de maneira surreal, sem rumo, sem direção, ou melhor, na direção contrária daquilo que me corroía. Embebido no meu próprio medo. Entrei em casa e fechei a porta como uma presa que finalmente encontra um abrigo seguro.
Mais tarde, logo que cheguei à festa, a vi do outro lado do salão e caminhei em sua direção. Porém, quando me aproximei, notei que ela não estava sozinha. Havia outro ao seu lado.
Vida de merda! – pensei. Olhei à minha volta, e me aproximei da primeira guria que pareceu ao menos um pouco agradável, na tentativa infame de, talvez, provocar nela o mesmo ciúme que me dominava naquele instante.
Estranhamente, ela me olhou, cerrou os olhos, virou o rosto e beijou o sujeito, sem graça, que a acompanhava.
A noite avançou. Bebi um pouco, não, bebi muito. Quisera eu, que aquela que almejo, tivesse por mim a mesma presteza que esta, com quem falava.
Perguntei-me – num devaneio alcoólico – se, posto que ela, de quem gosto, gosta de outro. Deveria meu dia, ou melhor, minha noite, ser mais cinza por isso? Devia, eu, me afogar em lamentos? Penso que não. E como resposta a tudo isso que me incomodava, beijei esta estranha que sequer sabia o nome. Se a fosse nomear, chamaria de SUBSTITUTA. Não passava disso e, ao invés de preencher o que me faltava, apenas aumentava o vazio.
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Já em casa, ouço a campainha da porta tocar. São 2h da madrugada e me pergunto quem poderia ser a uma hora dessas. Olho pelo olho mágico da porta e me surpreendo. Rapidamente abro a porta e lá está ela, parada, olhando para mim e sorrindo.
- Acabei com ele – disse, com a voz mais doce do mundo – posso ficar com você?
Imediatamente o coração dispara, minhas pernas fraquejam, emudeço. Minha surpresa é tamanha que quase me falta o ar para respirar. Quem eu mais quero está aqui, diante dos meus olhos, pedindo para ficar comigo. Então, em um lento movimento, meus lábios se abrem e de minha boca sai uma única palavra:
- Não.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Boa Noite
-Universal! exclama meu irmão, enquanto mostra um aparelho em suas mãos – um carregador universal. Carrega qualquer tipo de bateria de celular.
Ligou o aparelho em uma tomada a fim de testá-lo e já fazer uso da nova aquisição. Luzes coloridas saem do carregador, azul, vermelho, verde, amarelo, é fascinante. “Todos os tipos de bateria! Que aparelhinho incrível” – penso, enquanto sorrio e me preparo para dormir.
Aos pés da cama, há um pequeno guarda-roupa que divide o quarto ao meio, de costas para mim e de frente para a lateral da cama de meu irmão. Enquanto espero o sono chegar, observo, no escuro, as luzes coloridas do carregador refletidas, agora mais intensamente, nas costas do guarda-roupa. As cores ditam um ritmo frenético que proporcionam um verdadeiro show de luzes.
O tempo passa, o sono não chega. Já escuto um ronco baixo vindo do outro lado do quarto. O barulho aumenta. Já é a décima vez que mudo de posição na cama. Mesmo com os olhos fechados ainda noto a luz do carregador piscando incessantemente. Abro os olhos. Na rua, o som de uma ambulância combina com a luz dentro do quarto.
Chamo meu irmão uma vez, para ver se ele acorda. Sem sucesso, volto a me revirar na cama. Mais alguns minutos se passam, o barulho agora já se confunde com o som dos carros que passam. Apóio os pés no guarda-roupa. Ele balança.
Insuportável! Mas é meu irmão – penso, enquanto encolho as pernas.
Contar carneiros talvez ajude. Me pego imaginando-os pulando a cerca branca de uma bonita fazenda. Até os carneiros roncam.
A luz parece piscar cada vez mais rápida. O ronco agora é constante. Fecho os olhos, mas não consigo pensar em mais nada a não ser, no leão que ruge a poucos metros e no maldito show de luzes coloridas. O fim do mundo anunciado mais cedo, agora não me parece mais tão absurdo. Novamente escoro os pés nas costas do guarda-roupa. Mais uma vez, ele balança. Ouço um último roncar. Não resisto. Agora sim que não durmo mais.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Religiosidade
O que seria do homem sem o medo da fúria superior ou a esperança da recompensa divina por uma vida de boas ações?
Fazer o bem só fará sentido se existir o bem e o mal. E as pessoas no fundo o fazem por pensar que seus atos estão sendo avaliados por um Ser Superior que tudo vê.
Além disso, temos o fato da “realidade cômoda”. É mais fácil para as pessoas acreditarem em uma história pronta, que pune atos errados e gratifica os certos, que lhe diz como tudo começou e vai acabar, do que questionar e ponderar se tudo é verdade ou não. Optam pelo comodismo feliz, por algo que os faça acreditar que a vida não é apenas o que se vê.
Tenho uma amiga chamada Roberta. É a pessoa mais feliz que conheço. Casada há 10 anos, Roberta ama seu marido, tem uma vida alegre, estável, onde tudo está onde deveria estar.
Às vezes, e só às vezes, o marido de Roberta chega em casa tarde, recebe ligações misteriosas, faz viagens suspeitas, a trai.
Roberta nunca se importou, nunca questionou nada. Para ela a vida é perfeita. Questionar, para ela, talvez signifique descobrir uma verdade que ela não deseja que seja real.
Ao meu ver, essa verdade em que vive, faz de Roberta uma pessoa melhor, que crê no seu casamento, e é boa e agradecida por isso.
Assim funciona a Religião. Pode não ser a mais pura verdade, podemos às vezes ser traídos por histórias e acontecimentos que não fazem sentido, mas, no fim, nossa religiosidade, esse “querer crer em algo maior”, nos torna pessoas melhores. Queremos crer em algo melhor, queremos ter esperança, e é essa fé que nos impulsiona.
Muitas vezes abrimos mão de um questionamento maior em troca da felicidade, que depende apenas dessa fé para acontecer. Sabemos, no fundo, que nem tudo é verdade, mas ignoramos “detalhes” e damos à história o sentido que nos agrada. Alienados? Talvez. Mas confortáveis em uma realidade que nos faz bem, que nos torna pessoas melhores, como Roberta: a pessoa mais feliz que conheço.
sábado, 7 de novembro de 2009
A Ponte do Rio Que Cai
Das histórias que ouvi, das histórias que contei, poucas foram as que, como esta, tiveram ao mesmo tempo a simplicidade de uma vida sofrida e de experiências e a graça do cotidiano, da estranheza e do inusitado.
Revirando as fotos que tenho guardadas em meu computador, encontrei uma porção de fotos que nem ao menos lembrava que ainda estavam lá. Fotos antigas, misturadas com fotos novas, fotos da cidade de onde me criei, fotos da minha infância. No meio delas estava a foto de um senhor idoso, chegando ao aniversário de meu avô, no primeiro momento não reconheci o homem da foto, mas depois de alguns instantes, forçando minha memória, me venho a cabeça seu nome e –mais ainda – uma história muito antiga, que precedia até meu nascimento. Essa é uma daquelas histórias com moral, ou ao menos, no fundo tenta ter alguma lição a passar. Foi contada inúmeras vezes por meu pai e é umas das muitas que já me contou até hoje.
O “Seu Camargo” como meu pai o chamava. Senhor idoso, beirava seus 60 anos, cabelos grisalho, “magro que era só osso”, assim diziam as crianças do bairro. Lembro até hoje, que desde “piazito” meu pai contava a história do Sr. Camargo. E o incrível era conseguir tirar dessa história, no mínimo engraçada, uma lição que se possa usar para a vida, e isso meu pai fazia muito bem.
Reza a lenda que o Sr. Camargo, morador do subúrbio de Capão da Canoa, era desses freqüentadores assíduos de estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas, ou seja, gostava de uma cachaça que só vendo, não saía do boteco e de jeito algum abria mão da sua “purinha”. Mas até aí tudo bem, de botequeiros de plantão qualquer cidade está cheia. O próprio Sr. Camargo dizia que boteco, cachorro e criança pequena, têm em qualquer lugar. Tinha até seu boteco favorito, comentava que um boteco, pra ser bom, não pode nem ser tão longe de casa que não se possa voltar a pé, nem tão perto que a mulher possa te encontrar ou mandar os “guris” te chamar. Sábias palavras. Porém, contam os mais chegados que a certa altura dos seus porres – que por sinal eram muito frequentes - o Sr. Camargo decidia ir para casa, sozinho, e tropeçando na direção de casa se deparava com “A ponte” em seu caminho - a ponte não era muito grande, quiçá poderia ser chamada de ponte, era mais uma destas travessas de riacho do interior, uma pontezinha de tábuas, por assim dizer. Mas o fato é que o Sr. Camargo, ao tentar atravessá-la alcoolizado, sempre caía. Isso mesmo, desabava sempre do alto daquela ponte. Em um desses porres meu pai fora acompanhá-lo no caminho de casa, amigos de longa data, dos tempos de quartel, os dois foram caminho à dentro conversando. Conversa vai, conversa vem, quando é chegada a hora de atravessar a ponte, a mesma de sempre, porém, desta vez, sem ao menos parar pra pensar o Sr. Camargo continua o assunto e segue atravessando o rio por baixo da ponte, por dentro d’água. Espantado meu pai pergunta:
- Mas tchê! Por que tu não atravessas pela ponte?
Com a maior naturalidade do mundo, no alto do seu porre o Sr. Camargo responde:
-Pra quê? Se eu sei que vou cair!
E desde então o Sr. Camargo nunca mais atravessou o rio por cima da ponte – ao menos, não enquanto estava bêbado.
Se parar pra pensar, sabe que não tiro a razão dele. Claro que é no mínimo estúpido atravessar um rio por dentro d’água, porém penso que ele apenas cansou de cair, poupou tempo e cuidados médicos, se a queda era iminente, para quê insistir?
Às vezes – e é aqui que entra a lição de que meu pai falava - quando nos deparamos com um novo romance, ou uma nova “paixonite” dessas de piá, pensamos se vale à pena tentar atravessar essa ponte, se encaramos o perigo da queda certa ou evitamos tudo isso e vamos logo por dentro d’água, desistindo de algo mais profundo e levando tudo superficialmente. Poderia ser essa uma visão pessimista dos fatos, mas o fato é que mais cedo ou mais tarde teremos que arriscar e a grande sacada nessa hora, não é escolher se vale a pena ou não arriscar atravessar a ponte e sim escolhermos por quem vale a pena cair dela. No final das contas as marcas e os hematomas da queda, não serão apenas marcas e sim troféus de algo que valeu a pena.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
ESTAMOS COM FOME DE AMOR!!
QUERO SER IDIOTA!!! e feliz!!!
terça-feira, 5 de junho de 2007
Busca Eterna...
Preciso de alguém que me olhe nos olhos quando falo; que ouça minhas tristezas e neuroses com paciência. E, ainda que não compreenda, respeite meus sentimentos. Preciso de alguém, que venha brigar ao meu lado sem precisar ser convocado. Alguém amigo o suficiente pra dizer-me as verdades que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso odiá-lo por isso. Nesse mundo de céticos, preciso de alguém que creia nessa coisa misteriosa, desacreditada, quase impossível: a amizade. Que teime em ser leal, simples e justo, que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e não for mais a sensação da festa. Preciso de um amigo que receba com gratidão o meu auxílio, a minha mão estendida. Mesmo que isto seja muito pouco para suas necessidades. Preciso de um amigo que também seja companheiro, nas farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no meio da tempestade, grite em coro comigo: "nós ainda vamos rir muito disso tudo.” E ria muito. E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com uma amizade verdadeira, a vida se torna mais simples, mais rica e mais bela...
(Charles Chaplin)
O Quase...
O Quase
(Luiz Fernando Veríssimo)
Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Para os erros há perdão, para os fracassos, chance, para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.