É estranho. Diria até que beira o bizarro o quanto é difícil escrever um bom texto. Teoricamente parece fácil, basta escrever o que se tem na cabeça. O que vier à mente. Letra por letra, palavra após palavra, uma ideia depois da outra e pronto, texto feito. Mas não é.
Acredito que funcione, mais ou menos, como quando alguém pergunta o significado de uma palavra difícil. Você sabe o que significa, conhece o sentido, mas não consegue transcrever para os outros o significado e, geralmente, a única coisa que balbucia é “Eu sei o que é, mas não sei explicar.”
A história está toda alí, martelando na sua cabeça. Praticamente implorando para ser escrita. Algumas vezes você até consegue contar trechos dela para outra pessoa, mas na hora de escrever, nada acontece. A história simplesmente esconde-se na sua mente, atrás de uma barreira que fronteira o imaginário e a escrita. No exato momento em que a caneta toca o papel, a história esvai-se em fumaças brancas de esquecimento. Escreve-la então, se torna uma eterna Odisséia à caça de nuvens de pensamentos soltos que, tão nítidos até pouco tempo, agora apenas fazem parte de um enorme quebra-cabeças literário.
Invejo alguns “Caçadores de Nuvens”, como uma guria que conheço que escreve em “doses” geniais da própria vida, ou outra que esbanja textos esportivos como se fossem contos. Ivejo-as como conseguem, tão facilmente, montar estes quebra-cabeças que para mim são tão difíceis.
Invejo, mas não por mal. Porém, pensando um pouco, lembrei que certa vez ouvi que “não exite inveja boa”. E olhando por esse ângulo, o que sinto não seria inveja, então, seria outra coisa. Uma admiração misturada com querer pra si. Um misto de abobação e indignação. Um fascínio quase estranho. Em poucas palavras: eu sei o que é, mas não sei explicar.
terça-feira, 3 de maio de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
De repente
Ela sempre aparece de repente, quando percebo já está lá, na área dos fumantes da empresa que fica bem em frente a minha janela. Todos os dias depois do almoço, ela para na beira da sacada e olha a rua. Olha como se visse muito mais do que está a sua frente, olha como se naquela rua seu passado desfilasse, esnobe, jogando-lhe na cara tudo que perdera. Um passado triste, talvez de escolhas erradas, que agora ela observa tentando encontrar o ponto exato onde errou. Parada ali, essa moça de pele branca, cabelos negros e olhos tão profundos que fariam qualquer um se afogar - caso olhasse-os por muito tempo – exala tristeza em cada póro de seu corpo. Uma tristeza da alma, da vida, da solidão. Cigarro após cigarro ela apenas observa a rua, como se a cada tragada ela soprasse para longe todas as lembranças tristes. Tristeza tal, que sufoca até mesmo a mim, que apenas observo-a de longe. A cada instante que passa, fico imaginando quando será o instante derradeiro em que a lágrima cairá. Mas esse instante não chega. Nenhuma lágrima cai, nenhuma expressão muda. Ela simplesmente apaga o que sobra do cigarro e vai embora.
Sem herói, sem príncipe encantado, sem sorriso amigo. Ela simplesmente volta ao trabalho. E pior que o medo, raiva ou dor, que outrora sentia, é essa indiferença que parece lhe dominar. De uma maneira irreal, completa e sufocante, não sente nada. Olha a rua uma última vez, na espectativa de sentir alguma coisa, gostar de algo. Mas tal espectativa passa e, com essa vontade, vai também um pedaço do que lhe resta de humanidade. E, cada vez mais, se transforma nesse “nada” que sente.
Tão de repente como ela vai, me vem de uma hora pra outra essa tristeza que nem minha é. Louca e desvairada tristeza que observa de longe, mas que me parece tão próxima, tão minha. E que, em um momento de puro egoísmo, se vai. Percebo então, que no fundo me sinto contente por não estar no lugar daquela garota. ‘Fica bem’- sussurro, como que me despedindo da estranha do outro lado da rua. E com um misto de tristeza alheia e felicidade própria, volto ao trabalho também.
Sem herói, sem príncipe encantado, sem sorriso amigo. Ela simplesmente volta ao trabalho. E pior que o medo, raiva ou dor, que outrora sentia, é essa indiferença que parece lhe dominar. De uma maneira irreal, completa e sufocante, não sente nada. Olha a rua uma última vez, na espectativa de sentir alguma coisa, gostar de algo. Mas tal espectativa passa e, com essa vontade, vai também um pedaço do que lhe resta de humanidade. E, cada vez mais, se transforma nesse “nada” que sente.
Tão de repente como ela vai, me vem de uma hora pra outra essa tristeza que nem minha é. Louca e desvairada tristeza que observa de longe, mas que me parece tão próxima, tão minha. E que, em um momento de puro egoísmo, se vai. Percebo então, que no fundo me sinto contente por não estar no lugar daquela garota. ‘Fica bem’- sussurro, como que me despedindo da estranha do outro lado da rua. E com um misto de tristeza alheia e felicidade própria, volto ao trabalho também.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Tão banal quanto eu
O que segue não é um conto ou uma grande história, mas, confissões – se assim se pode chamar. Confissões de um cansaço da alma, desse jogo de falsas promessas e “Eu te amos” sem sentido, onde até mesmo meu mais simples “bom dia” têm mais sentimento que as palavras que dizes em vão.
“Te amo”, quando dizes tem tão pouca força, que se torna banal, comum. “Te amos” populares, como meros reflexos da indústria cultural e anseios comerciais, que em nada têm haver com outras pessoas. “Amo a televisão”, “amo o MacDonalds”, amo, amo, amo. São tantos , proferidos a toda hora, que perdem o sentido. Perdem o próprio amor. Amor esse, que a própria palavra – ou quem a diz – quiçá ousa ter.
Por isso, quando me dizes, não acredito. E não acredito não por não querer acreditar. Duvido mais pelo conhecimento empírico do que pelo próprio querer ou simples vontade. Me amas agora, da boca pra fora, não de fato. Em cinco minutos me esqueces, e com a mesma alegria dizes à outro, outra vez, “te amo”.
Segues de falsos em falsos amores, que duram não mais que o próprio ecoar dos “te amos” ditos. Dias, horas, minutos. Às vezes, tão pouco, que acabam no exato momento que pronunciados.
Dizes não como certeza, mas como argumento. E repete uma, duas, mil vezes na ânsia de convencer-se. Porém, indubitavelmente, tudo acaba.
No outro dia – e gostaria que tal prazo fosse exagerado – amas um próximo. Mas não com a mesma intensidade. Amas mais, ou ao menos, assim dizes.
Grita aos quatro cantos, aos ventos, à quem quiser ouvir, dez mil vezes “eu te amo”. Sem saber que bastaria apenas uma. Sussurrada, quando talvez nem mesmo o próprio objeto amado ouvisse. Não mais, um grito exibicionista ou anseio fútil, mal acostumado e sem sentido. Desta vez, um quase involuntário soluço d’alma que, mesmo contra a vontade, deixa-se escapar e revela o que há tempos se via em cada sorriso ou olhar discreto. Este sim, mesmo sussurrado, ecoaria ao longe e duraria tanto tempo quanto a própria alma que, inocente, ousara dizê-lo.
“Te amo”, quando dizes tem tão pouca força, que se torna banal, comum. “Te amos” populares, como meros reflexos da indústria cultural e anseios comerciais, que em nada têm haver com outras pessoas. “Amo a televisão”, “amo o MacDonalds”, amo, amo, amo. São tantos , proferidos a toda hora, que perdem o sentido. Perdem o próprio amor. Amor esse, que a própria palavra – ou quem a diz – quiçá ousa ter.
Por isso, quando me dizes, não acredito. E não acredito não por não querer acreditar. Duvido mais pelo conhecimento empírico do que pelo próprio querer ou simples vontade. Me amas agora, da boca pra fora, não de fato. Em cinco minutos me esqueces, e com a mesma alegria dizes à outro, outra vez, “te amo”.
Segues de falsos em falsos amores, que duram não mais que o próprio ecoar dos “te amos” ditos. Dias, horas, minutos. Às vezes, tão pouco, que acabam no exato momento que pronunciados.
Dizes não como certeza, mas como argumento. E repete uma, duas, mil vezes na ânsia de convencer-se. Porém, indubitavelmente, tudo acaba.
No outro dia – e gostaria que tal prazo fosse exagerado – amas um próximo. Mas não com a mesma intensidade. Amas mais, ou ao menos, assim dizes.
Grita aos quatro cantos, aos ventos, à quem quiser ouvir, dez mil vezes “eu te amo”. Sem saber que bastaria apenas uma. Sussurrada, quando talvez nem mesmo o próprio objeto amado ouvisse. Não mais, um grito exibicionista ou anseio fútil, mal acostumado e sem sentido. Desta vez, um quase involuntário soluço d’alma que, mesmo contra a vontade, deixa-se escapar e revela o que há tempos se via em cada sorriso ou olhar discreto. Este sim, mesmo sussurrado, ecoaria ao longe e duraria tanto tempo quanto a própria alma que, inocente, ousara dizê-lo.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Te odeio
Entra correndo e fecha porta do quarto com tanta força que o barulho ecoa pela casa inteira. Bate com as costas na porta e lentamente escorrega até o chão. Sentada na pedra fria, sente um vazio tão intenso e assustador que parece que nada que diga ou faça vai preenchê-lo, nunca. Tem a nítida sensação de que algo lhe está sendo arrancado do peito. Sozinha nesse quarto escuro consegue enxergar, em um armário ao seu lado, uma garrafa de uísque. Arrasta-se até ela, tira a tampa e bebe goles e mais goles. Puros, secos e quentes goles de uísque amargo. Num amargo d’alma, do que sente, do que não queria sentir. Ela bebe, na inútil esperança de melhorar. Como se o gosto amargo do uísque fosse apagar a cena que acabara de ver. Como se ficar bêbada a fizesse esquecer-se dele beijando outra. Não esquece; tão pouco melhora.
Fecha os olhos e uma lágrima, tão solitária quanto ela, escorre junto aos restos negros da maquiagem que borra o branco do seu rosto. Rosto esse, que antes parecia o de um anjo e agora não passa de um retrato grotesco de desespero. Abre a boca e com a voz rouca e melancólica sussurra, sem forças, sem esperanças: - te odeio – como que tentando convencer a si, mais uma vez - te odeio. A voz aos poucos vai aumentando, ganhando força, raiva - te odeio, te odeio - aumenta mais e mais - te odeio - e ela grita o mais alto que consegue suportar, grita para todos, para ninguém, para si, pela última vez -TE ODEIO. E chora, copiosamente, chora. Aos soluços, já nem perde mais tempo enxugando as lágrimas, deixa que corram e molhem o chão frio.
O nó na garganta parece aumentar cada vez mais, o peito aperta, tudo é sufocante, agonizante. Mais um gole do uísque, mais uma lágrima. Tomada pelo cansaço, lentamente, vai adormecendo, porém não antes que o vazio sussurre-lhe aos ouvidos mais uma vez: - te odeio.
Fecha os olhos e uma lágrima, tão solitária quanto ela, escorre junto aos restos negros da maquiagem que borra o branco do seu rosto. Rosto esse, que antes parecia o de um anjo e agora não passa de um retrato grotesco de desespero. Abre a boca e com a voz rouca e melancólica sussurra, sem forças, sem esperanças: - te odeio – como que tentando convencer a si, mais uma vez - te odeio. A voz aos poucos vai aumentando, ganhando força, raiva - te odeio, te odeio - aumenta mais e mais - te odeio - e ela grita o mais alto que consegue suportar, grita para todos, para ninguém, para si, pela última vez -TE ODEIO. E chora, copiosamente, chora. Aos soluços, já nem perde mais tempo enxugando as lágrimas, deixa que corram e molhem o chão frio.
O nó na garganta parece aumentar cada vez mais, o peito aperta, tudo é sufocante, agonizante. Mais um gole do uísque, mais uma lágrima. Tomada pelo cansaço, lentamente, vai adormecendo, porém não antes que o vazio sussurre-lhe aos ouvidos mais uma vez: - te odeio.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Maldito
Sentado, ainda com um taco de sinuca na mão, em uma mesa amarela, de plástico, em um boteco barato. Termino minha cerveja, já quente, e peço outra ao garçom. Olho pra frente e vejo-a vindo em minha direção. Magra, alta, com a pele clara. Muito clara. Inclina-se na minha direção e uma mecha de cabelo, tão vermelha quanto o fogo, lhe cai sobre o rosto. Deus, que cheiro! - penso, enquanto ela oferece-me a face para um beijo de despedida. É tarde, e enquanto eu ainda estou no meio da noite, ela já tem que ir para casa, estudar para uma prova qualquer. Bio síntese sei lá do que. Maldita cdf. Beijo seu rosto e a mesma mão que segurava seu cabelo, ela coloca em meu queixo. 3 segundos, não mais do que isso, foi o tempo que minha boca encostou-se àquele rosto tão macio. Entretanto, nesse intervalo, me vieram à tona milhões de pensamentos. Uma amiga. Nunca fora nada mais do que isso. Nunca pensei em tratá-la diferente. Mas, e se minha boca escorregasse até a sua? Qual seria a reação dela? E se a boca dela escorregasse até a minha? Agiria, eu, normalmente? Fugiria? Corresponderia? E se ambos escorregássemos, um na direção do outro, com tamanha intensidade que teríamos, por alguma estranha razão, naquele momento a nítida certeza que fora sempre isso que desejamos? E se, e se, e se? Dúvidas e mais dúvidas que me apareciam em milésimos de segundo, num despejo alucinado de adrenalina, endorfina ou sei lá que substância dispara um coração nessas horas. Coração esse que me subia até a garganta, como que em um louco desejo de se fazer ouvir.
Em meio a tantas dúvidas, apenas uma, maldita, se sobressaía: e se ela não quiser? Maldito medo da rejeição, que me faz tão fraco. Tão estúpido. Talvez, se essa despedida acontecesse no fim da noite, no auge do efeito alcoólico sobre mim, o resultado poderia ser outro. Mas, não.
Incrível como, em tão curto período, ainda consigo tempo para sentir medo. Maldito medo. Não penso em mais nada, apenas no medo. E se, e se, e se? Maldita dúvida. Maldito sentimento que, até pouco tempo atrás, não existia e agora parece tão intenso. Maldito coração. Maldito cheiro bom.
Afasto minha boca do rosto dela e nessa hora acordo. Maldito sonho.
Em meio a tantas dúvidas, apenas uma, maldita, se sobressaía: e se ela não quiser? Maldito medo da rejeição, que me faz tão fraco. Tão estúpido. Talvez, se essa despedida acontecesse no fim da noite, no auge do efeito alcoólico sobre mim, o resultado poderia ser outro. Mas, não.
Incrível como, em tão curto período, ainda consigo tempo para sentir medo. Maldito medo. Não penso em mais nada, apenas no medo. E se, e se, e se? Maldita dúvida. Maldito sentimento que, até pouco tempo atrás, não existia e agora parece tão intenso. Maldito coração. Maldito cheiro bom.
Afasto minha boca do rosto dela e nessa hora acordo. Maldito sonho.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Saudade
Pelo vidro da janela, observa a chuva cair enquanto sente uma profunda nostalgia. Seus olhos ameaçam uma lágrima e ela lembra que há muito seu rosto não sente uma só gota rolar. Não chora mais. Ainda hoje, se permite às vezes – e só às vezes – sentir saudades daquela última lágrima, e pensa que, com ela, talvez se fora a melhor parte de si. Não crê estar mais forte por isso, pelo contrário, agora tem mais medo. E tudo que faz tem sempre certo olhar de desconfiança. Não, com certeza, não está mais forte. Parece que apenas cansou de sofrer e permite-se, uma vez mais, sorrir. E, talvez um dia, não lembrar mais do tempo em que chorava. Como muitos outros resquícios de sensações que empurra diariamente - meio cansada, meio aflita, meio nostálgica; hoje ela é meio feliz. Com toda ambiguidade que esse “meio” possa permitir, ela sabe que, por mais alegres que sejam seus dias, uma parte dessa quase felicidade, ficou lá atrás. Rolou, junto com a última lágrima que desperdiçara por ele.
Revira suas coisas e encontra, meio empoeirado, um diário onde escrevia tudo aquilo que sentia. Coisas que deveriam ter sido ditas, mas esbarraram no medo. E, mesmo que entaladas na garganta, precisavam “ser”. Palavras que quanto mais não ditas, mais intensas eram. Portanto, as escrevia.
Folhando as páginas do diário, encontrou dobrado um pequeno papel. Laminado de um lado, áspero de outro – desses que se encontra em bombons. Nele, à lápis, escrito apenas: “...queria um abraço teu...”. Por um milésimo de segundo, ao ler aquela pequena inscrição, ela se transporta para a época em que se conheceram. Tempo em que, com ele, sentava no chão da sala, escutava música e falava besteira. Marcava festinhas, cafés com cuca, banhos de chuva. Tempo em que era feliz. Tinha dúzias de amigas, porém, apaixonara-se, justamente, por seu melhor amigo. Ele, com todos seus defeitos – que por sinal, não importavam para ela; ele, que dentre todos os pecados inconcebíveis, pôde cometer o mais absurdo deles: o de Não gostar dela.
Apesar disso, não se lembra daquele tempo com rancor. Acha incrível como só aquele, que é o outro, pode nos mostrar quem somos. Esboça um pequeno sorriso ao pensar como seria se ele lesse aquele diário recheado de páginas a seu respeito. Então, uma lágrima solitária rola por seu rosto e cai sobre as folhas abertas do diário. Não é tristeza, nem dor. Apenas, saudade.
Revira suas coisas e encontra, meio empoeirado, um diário onde escrevia tudo aquilo que sentia. Coisas que deveriam ter sido ditas, mas esbarraram no medo. E, mesmo que entaladas na garganta, precisavam “ser”. Palavras que quanto mais não ditas, mais intensas eram. Portanto, as escrevia.
Folhando as páginas do diário, encontrou dobrado um pequeno papel. Laminado de um lado, áspero de outro – desses que se encontra em bombons. Nele, à lápis, escrito apenas: “...queria um abraço teu...”. Por um milésimo de segundo, ao ler aquela pequena inscrição, ela se transporta para a época em que se conheceram. Tempo em que, com ele, sentava no chão da sala, escutava música e falava besteira. Marcava festinhas, cafés com cuca, banhos de chuva. Tempo em que era feliz. Tinha dúzias de amigas, porém, apaixonara-se, justamente, por seu melhor amigo. Ele, com todos seus defeitos – que por sinal, não importavam para ela; ele, que dentre todos os pecados inconcebíveis, pôde cometer o mais absurdo deles: o de Não gostar dela.
Apesar disso, não se lembra daquele tempo com rancor. Acha incrível como só aquele, que é o outro, pode nos mostrar quem somos. Esboça um pequeno sorriso ao pensar como seria se ele lesse aquele diário recheado de páginas a seu respeito. Então, uma lágrima solitária rola por seu rosto e cai sobre as folhas abertas do diário. Não é tristeza, nem dor. Apenas, saudade.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Cópias
Garota estranha. Usava apenas preto, freqüentava porões, becos e cabarés. Dizia amar demais, por isso pulava de paixão em paixão. Amava a todos, conseqüentemente, não amava nenhum.
Preferia a noite, talvez, por saber que nela tudo se mascara. Gostava de beber. Não pelo gosto, nem pelo efeito entorpecente. Apenas porque depois de algumas doses, ao se olhar no espelho, achava-se bonita – só assim. À luz do dia, tantas coisas a calavam, porém, à noite o mundo se moldava conforme a sua vontade. Era quem quisesse ser. Era todas, e quem sabe até, meio escondida de si, conseguisse ser ela mesma.
E foi em uma dessas noites em que tudo que conseguimos ver são luzes, música e silhuetas. Ela, estranha de olhos tão profundos e sombrios quanto o preto que vestia, parou em meio aquela multidão e teve o que se poderia chamar de uma “quase” epifania. Não tivera uma grande revelação, nem descobrirá algo extraordinário. Apenas se dera conta de que, apesar de estar rodeada de pessoas, ainda assim estava só. E por isso, sentira-se a pessoa mais infeliz do mundo.
Apenas por reflexo, tomou mais um gole de sua bebida, largou o copo sobre uma mesa e saiu em direção a porta, decidida a ir embora. No caminho pensou na vida, na morte, nas coisas. Julgou-se uma ladra. Copia palavras, usurpa idéias. Tudo que pensa ser dela, outro, na verdade, disse antes. Até aquele que julgava amar, por outra já fora amado. Será que nada do que fizesse seria original? Nada, além de constantes plágios.
Sem prestar atenção no caminho, entra por uma rua escura. O vento sopra forte. A noite é intensa. Sob a luz da lua, de cabeça baixa, ela passa por aquela rua estreita. Escuta um barulho e, ao olhar, tropeça em uma garrafa jogada na calçada. Cai no chão e dá risada do próprio infortúnio. Deitada no chão olha para o alto e vê o vento balançar uma janela que, de tanto bater, se quebra jogando em sua direção um caco de vidro do tamanho de uma escova de cabelos. O vidro rasga seu olho. Morre na hora.
Ela, garota estranha dos olhos profundos, que passou seus últimos momentos pensando ter uma vida de cópias, teve, finalmente, o que queria. Originalidade. Ao menos na morte.
Preferia a noite, talvez, por saber que nela tudo se mascara. Gostava de beber. Não pelo gosto, nem pelo efeito entorpecente. Apenas porque depois de algumas doses, ao se olhar no espelho, achava-se bonita – só assim. À luz do dia, tantas coisas a calavam, porém, à noite o mundo se moldava conforme a sua vontade. Era quem quisesse ser. Era todas, e quem sabe até, meio escondida de si, conseguisse ser ela mesma.
E foi em uma dessas noites em que tudo que conseguimos ver são luzes, música e silhuetas. Ela, estranha de olhos tão profundos e sombrios quanto o preto que vestia, parou em meio aquela multidão e teve o que se poderia chamar de uma “quase” epifania. Não tivera uma grande revelação, nem descobrirá algo extraordinário. Apenas se dera conta de que, apesar de estar rodeada de pessoas, ainda assim estava só. E por isso, sentira-se a pessoa mais infeliz do mundo.
Apenas por reflexo, tomou mais um gole de sua bebida, largou o copo sobre uma mesa e saiu em direção a porta, decidida a ir embora. No caminho pensou na vida, na morte, nas coisas. Julgou-se uma ladra. Copia palavras, usurpa idéias. Tudo que pensa ser dela, outro, na verdade, disse antes. Até aquele que julgava amar, por outra já fora amado. Será que nada do que fizesse seria original? Nada, além de constantes plágios.
Sem prestar atenção no caminho, entra por uma rua escura. O vento sopra forte. A noite é intensa. Sob a luz da lua, de cabeça baixa, ela passa por aquela rua estreita. Escuta um barulho e, ao olhar, tropeça em uma garrafa jogada na calçada. Cai no chão e dá risada do próprio infortúnio. Deitada no chão olha para o alto e vê o vento balançar uma janela que, de tanto bater, se quebra jogando em sua direção um caco de vidro do tamanho de uma escova de cabelos. O vidro rasga seu olho. Morre na hora.
Ela, garota estranha dos olhos profundos, que passou seus últimos momentos pensando ter uma vida de cópias, teve, finalmente, o que queria. Originalidade. Ao menos na morte.
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